Nas
folhas de papel da prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) os
candidatos e as candidatas que prestaram o exame no final de semana nos dias 25
e 26 de outubro de 2015 foram desafiados e desafiadas a refletir sobre o tema “A
persistência da violência contra a mulher” a partir de uma passagem da obra “O
Segundo Sexo”, do ano de 1949, da filosofa e escritora Simone de Beauvoir, um
dos símbolos do feminismo mundial, atual fato que repercutiu em constantes
polêmicas pelas redes sociais e rodas de conversa pelo Brasil. Mas o que era
apenas um tema de redação em uma prova nos remete a perceber que a realidade é
mais dura e que as mulheres, mesmo com suas importantes lutas históricas, ainda
continuam sendo alvo de violência, seja ela de qualquer natureza.
Pessoas
que não concordam com o ponto de vista da escritora se escandalizaram ao ter
essa temática sendo proposta durante uma prova, isso também despertou o
radicalismo de políticos que se manifestaram contrários com a abordagem da
redação insistindo que o Ministério da Educação estava tentando doutrinar as
pessoas com uma ideologia feminista e que a autora em questão não era uma
pessoa que compreendia a biologia do ser humano ao retratar em sua obra que "Ninguém
nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico
define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da
civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado
que qualificam o feminino". Tal fato trouxe à tona em nosso país algo que
não é atual, mas que estava “mascarado” na sociedade brasileira: o preconceito
à mulher, conhecido por todos e todas como machismo. Mas com isso não tivemos
apenas a exposição de preconceito contra a mulher, mas também contra as negras
através do preconceito étnico e contra todas as classificações que temos
relacionadas a imagem de feminilidade, como transexuais, travestis e gays. Algo
que vem sendo um fator histórico que vem se repetindo desde as eras passadas da
nossa sociedade, no qual as mulheres serviam apenas como “objeto” sexual para
procriação e de afazeres domésticos nos lares de famílias e se fossem tentar a
vida fora de casa na maioria das vezes seria através da prostituição de seu
corpo.
Nem
mesmo as personalidades artísticas estão escapando dessa “onda” de violência
que vem assolando o mundo virtual, tendo sua intimidade e sua etnia
desrespeitada através de vídeos agressivos, ameaças e imagens espalhadas pelas
redes sociais. Nem mesmo a presidente da república, senadoras, deputadas e
vereadoras estão de fora de tudo isso, pois tivemos há meses atrás pessoas
colocando em seus veículos adesivos com imagem da presidente em postura não
conveniente e também deputada federal sendo agredida verbalmente com a fala
“Feia desse jeito a senhora não merece nem ser estuprada”, como se alguém
merecesse sofrer por esse tipo de violência da imaculação do corpo humano. E no
Rio Grande do Sul, especificamente no município de Porto Alegre, durante uma
apresentação na feira de livros com temáticas feministas, alternativa à Feira
do Livro de Porto Alegre, mulheres foram agredidas por policiais que utilizaram
de força desnecessária contra as presentes no evento. As mulheres sempre foram
“seres” relacionados ao pecado pelas religiões, de uso sexual pela sociedade e
de imagem na política e na cultura da maioria dos povos que temos espalhados
pelo mundo.
Não podemos mais, em
pleno século XXI, que continue tendo no nosso planeta uma propagação de cultura
na qual a mulher venha a ser ainda uma pessoa que não faz parte da sociedade e
que vem a servir apenas como “dona do lar”, a “mamãe do ano”, como se os homens
também não tivesse que ter parte na educação dos filhos e das filhas, ou como
profissionais que não devam ter os mesmos direitos e deveres no mercado de
trabalho que os homens. Pois se é para se voltar o olhar para alguma religião
ou cultura percebe-se que independente do gênero, da classificação, denominação
e/ou orientação feminina uma pessoa completa a outra e vice-versa.
Jéferson Cristian Guterres de Carvalho
Graduando em bacharel em História
Universidade Luterana do Brasil - campus Canoas


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